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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Quem conta um conto #17 Cartas Soltas V

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Penso e repenso! Quero!  Não quero! Acendo um cigarro a seguir ao outro, o nervosismo impera. Quero mas não posso. Mais um cigarro. Coração a bater a mil. A ansiedade toma conta de mim. Quero tanto... E o meu cérebro amolece, e já não sabe distinguir o que quer do que não quer, o que pode, do que não pode. Ainda dizem que é o cérebro que comanda o coração! Não é, no meu caso não é...

 

Passam-se dias... E dias são muitas horas e muitas horas são demasiados minutos... Demasiados minutos sem ti. Mas eu preciso! Penso e repenso. Quero!  Não quero!  E um maço já foi.

 

Sinto tanta falta... Mas também sinto que preciso de estar assim só. Sem ti. Comigo. Sinto falta de estar comigo. Gosto de estar contigo, mas gosto ainda mais de estar comigo. Preciso de estar comigo. Amo-te. Mas amo-me mais. Preciso de me amar a mim, assim, com tempo. Gosto de me deliciar no tempo. 

 

Gosto do barulho, mas é o silêncio que mais me cativa. Gosto de sol mas é a sombra que me convence. Gosto de cores vivas mas são os neutros com que mais me identifico. Gosto de calor mas é do frio que mais sinto falta, quando me faz falta. Assim como tu. Gosto de ti mas é de mim que mais sinto falta quando estou contigo. Porque não conseguimos estar juntos? Eu e tu? Os dois? Acendo mais um cigarro e não consigo pensar. Continuo sem conseguir pensar, está demasiado barulho! 

 

Parem os carros, os relógios e o ensurdecedor ranger da madeira! Parem as luzes e fechem as janelas! Deixem-me no escuro e em silêncio! Preciso de me ouvir, e mesmo assim não me oiço! A voz que quer gritar e que cresce aqui dentro simplesmente nada diz. Estará afónica? Atónita? Ou simplesmente parva? Berra! Queres berrar, eu sei que queres. Berra!

 

Mas nada diz...

 

Diz apenas que gosta de ti... e de mim... Dos dois. Mas que gosta mais de mim e que não pode ter os dois ao mesmo tempo...

 

Repete isto até ao expoente da loucura...

 

Até que mais um maço se esfumou... e continuo sem saber: Quero ou não quero?

 

Um dia talvez conseguir-me-às compreender e perdoar! Até eu, talvez um dia me consiga compreender e perdoar.  Talvez um dia.

 

Até lá...

 

Desculpa!

Desafio de escrita dos pássaros #14 Deixa-me contar-te...

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Deixa-me contar-te ao ouvido uma história.

 

Não uma história bonita, não uma história de encantar. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história da minha vida, a história dos meus sentimentos. Dos meus sentimentos por ti. Dos meus sentimentos por ti e talvez até dos sentimentos por nós, um nós que não existe mas já existiu outrora. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre sensações e ambições. Uma história sem final feliz, mas com esperança. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história dos meus desejos e das minhas vontades. Dos meus desejos de te fazer feliz, e talvez de ser feliz também. Uma história sobre uma felicidade que já existiu, mas não existe mais. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre príncipes e princesas. Sobre cavalos e cavaleiros em países longínquos e austeros. Uma história onde não há vencedores nem vencidos. Uma história onde não vences tu, nem eu. Onde perdemos os dois, ou até talvez uma onde somos os dois vencedores. Podemos ser os dois vencedores?

 

Deixa-me contar-te...

 

Não...

 

Espera!

 

Não nasci para contar, nasci para viver. Rasga todas os papéis das histórias que te escrevi, dá-me a mão e vamos simplesmente viver.

 

Não... Não nasci para contar... Nasci para sentir, para cheirar, para correr e para cair, talvez até um pouco para sofrer...

 

Mas não... Não nasci para contar...

Desafio de escrita dos pássaros #13 Um novo final

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Ai se eu pudesse reescrever o final de um filme...! Reescreveria o final do filme que é a minha vida e colocar-lhe-ia mais cor, mais som, mais sabor. Porque é tudo o que poderia mudar. É tudo o que quereria mudar. E borraria tudo, e voltaria a reescrever, porque é exatamente isso que fazemos todos os dias: tentamos reescrever com novas linhas, um futuro mais feliz, ou pelo menos, menos infeliz.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme, da minha vida, colocaria muitos mais personagens, porque quero terminar-me com o maior número de pessoas à minha volta. O número nunca seria suficiente, porque gosto de barulho, de pessoas boas e mesa farta. Muitos risos e abraços. Muitas bochechas do rosto doridas. Um final com muitos mais sorrisos que lágrimas.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme... Nunca colocaria a minha personagem a olhar para trás. Nunca a faria arrepender de nada ou de lamentar alguma coisa. Reescreveria um final vitorioso e orgulhoso de tudo o que construiu. Terminaria triunfante.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme... Mesmo não sabendo como efetivamente acaba, reescreveria-o como uma comédia, romântica de preferência e nada dramática. Porque para dramático já bastaram os meios, e alguns fins. E colocaria uma música bem divertida, bem mesmo no final, uma música que nunca mais terminasse, porque gostaria que o filme da minha vida continuasse... e continuasse... e continuasse!

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme, daria abertura para todas as sequelas que me pudessem apetecer criar. Pelo menos enquanto me permitir ser feliz.

Desafio de escrita dos pássaros #11 Hachi por um dia

O difícil no tema desta semana foi decidir que animal de estimação iria escolher para integrar a sua visão. Estive mesmo para escolher um dos gatos, mas não sei se iria ter uma grande visão já que mais de metade do dia, eles estão de olhos fechados... A dormir! Assim escolhi o Hachi, vamos lá.

 

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Ora bolas já acordei e nem sinal delas! Vou até ao jardim. Ora bolas que não se levantam, que preguiçosas, será que já sabem que já é um novo dia? Não, não vou ladrar, não as quero acordar. Vou só deitar-me aqui à porta que assim elas têm que passar por cima de mim para saírem, e eu adoro!

 

Estou a ouvir! Estou a ouvir! Ai estou tão feliz, mas tão feliz!

 

Não descem? Hmm... Vou latir um pouco, se calhar esqueceram-se que eu estou aqui. Tenho fome! Vá lá, quero festas! E comida, também quero comida, mas quero festas. E morder, ai como eu adoro morder.

 

Uma já saiu, que bom, já vou ter com quem brincar!!!

 

Hei? Onde vais? Brinca comigo! Não vais ficar? Se não ficas também não vou contigo lá baixo, vais ver. És-me indiferente, não gosto de ti, nem te obedeço quando me chamas, é mesmo para veres como não gosto de ti, gosto mais da outra! A outra vem brincar comigo.

 

Mas c'um raio que a outra também não desce!

 

[passadas duas horas]

 

Estou a ouvir, estou a ouvir!!! Esta sim, vai brincar comigo!!! Isso festinha boa! Vou só morder um bocadinho porque eu gosto, e enchê-la de pêlo para que todo o dia se lembre de mim. Oops! Se calhar exagerei, ela está a ralhar e a sacudir-se toda.

 

Hei! Como assim? Vais carregada! Também já vais embora? Também não gosto de ti! Também não te acompanho lá em baixo! Nem se chamares, és-me indiferente, não quero saber! Gosto mais da outra e vou aguardar que a outra chegue. Também não deve faltar muito para a outra chegar.

 

Bem, ainda falta um pouco, vou procurar qualquer coisa para eu brincar. Olha! Chinelos! Como eu adoro chinelos! E vasos! É isso, vou roer este vaso até que não reste nenhum pedacinho!

 

Já destruí tudo o que pude, diverti-me, fiz buracos no jardim, arranquei a salsa... Não há mais nada para eu fazer e elas continuam sem aparecer... Estou triste, vou dormir um bocadinho.

 

Elas não vêm... vou ficar aqui sozinho para sempre!

 

[7 horas depois]

 

Ufa! Chegaram! Vou fingir-me de indiferente e não lhes vou ligar nenhuma. Nem as vou buscar à porta...

 

[-Hachi!?]

 

Quem quero eu enganar? Eu adoro-as, a minha cauda também já me denunciou: Um, dois, três aqui vou eu com toda a minha energia!!!!!

Desafio de escrita dos pássaros #9 A viagem

Imagem retirada daqui

 

 

Sentada na sala fumava tranquilamente. Fechei os olhos e deixei-me dormir. O corpo aos poucos amoleceu no cadeirão.

 

Acordo de repente.

 

Onde é que eu estou?

 

Olhei em volta e não vi ninguém. Apenas areia e mar. Voltei a olhar em volta, continuei a não ver ninguém. De repente o pânico: Nua? Como assim nua? Como é que eu vim aqui parar? Onde é que eu estou? Recompus-me. Não estava frio e não havia ninguém. Por que não aproveitar a liberdade? Fiquei tranquila, deixei-me relaxar.

 

Senti fome. Olhei em volta e vi umas árvores de fruto lá ao fundo. Fui de mansinho, pé ante pé, com cautela. Comi mangas, muitas mangas. Quem diria que algum dia iria ter assim o meu fruto favorito tão à minha disposição?

 

Deixei-me repousar no areal, sentir o calor do sol a queimar-me a pele. Banhei-me no mar que era morno. Senti-me feliz. Verdadeiramente feliz. Podia finalmente dizer que estava no paraíso.

 

Aos poucos, à medida que fui reconhecendo o território, o medo deu lugar à paz, à calmaria, mas logo a ansiedade voltou. E depois o pânico e novamente os nervos à flor da pele, a irritação.

 

Tenho de sair daqui! Preciso de sair daqui!

 

Encontrei um barquinho de madeira encalhado na areia. A raiva, o temor, a angústia... Tudo serviu de motor para conseguir ganhar forças e colocar o barquinho no mar. Desesperada, irritada,  amedrontada, tentei com o remo chegar a algum lugar mas apenas naveguei em círculos. Caí ao mar, deixei-me ir e senti-me a desvanecer.

 

No cadeirão enquanto dormitava entre uma baforada e outra no cigarro, coloquei mais uma pastilha na boca. Regressei tranquilamente à ilha. Estou sã e salva, novamente deitada no areal com o sol a torrar-me o corpo.

Desafio de escrita dos pássaros # A Vingança

Amor Proibido

O público decidu, e ficou decido. Os pássaros iriam ter um tema às pressas, sem contar. Este foi o tema escolhido pelo OSapo para atrapalhar a passarada.

 

 

Quero-te!

 
"Não posso ficar!"
 
Mas fica só mais um pouco, depois vais. Cobre-me só mais um pouco com os teus beijos, agarra-me mais um momento com as tuas mãos. Deixa-me fechar os olhos e imaginar que és meu só durante mais um bocadinho.
 
 
"Sabes que não posso ficar..."
 
Não vás já. Não me deixes já. Não estou preparado para ficar já assim sem ti e voltares para ela.

 
"Sabias desde o princípio que seria assim!"
 
Não fales do princípio. Não agora. No princípio é sempre diferente, mais consciente, mais coerente. No princípio era só cabeça, adrenalina, objetividade. Agora é corpo, é coração. É saudade. Fica comigo esta noite!
 
 
"Sabes que é proibido!"
 
Sabes que gosto do que não posso ter. Mas, sim é proibido, sei que o teu corpo nunca será meu, totalmente só meu. Apesar do teu coração não ter outro dono. Quero ser também o dono do teu corpo...
 
 
"Sabes que nunca poderás ser..."
 
E sei que por isso nunca serás feliz. Ao lado dela não és tu, não poderás nunca ser tu, sabes que só te expressas livremente comigo, sabes que só és verdadeiramente tu, comigo. Sabes que não serás feliz com mais ninguém... Ou pelo menos não com ela. Deixa-a. Fica comigo...
 
 
"Sabes que é impossível..."
 
Não é impossível... É apenas cobardia. E nem é por medo dela... Mas sim da sociedade. Advogado, pai de filhos e gay... O que dirão do advogado, casado com filhos e gay? Um dia vais-te cansar de seres infeliz... Impossível é que isso dure para sempre. Fica comigo, agora!
 
 
"Sabes que te amo..."
 
Não é suficiente para seres feliz, e já não é suficiente para eu ser feliz...
 
 
"Um dia eu luto por nós..."
 
Quando esse dia chegar já eu estarei cansado de amar um cobarde... Deixa-me lutar a teu lado. Eu protejo-te!
 
 
 
*
Deu-me um beijo e saiu. Fiquei com a certeza que foi o último. Sim, foi o último. Não viveu, não lutou, não foi feliz. Viveu apenas, na memória, o amor que o seu coração deixou, mas que a sociedade nunca aprovou. 
 

Desafio de escrita dos pássaros #6 O amor, uma cabana… e um frigorífico!

 

 

Ana e Rui viviam lá longe, bem longe da civilização. Viam muitas vezes o Rui, mas nunca ninguém vira Ana. Ainda assim, dizia-se lá na terra que eram um casal muito apaixonado, que Ana vivia para Rui e Rui só tinha olhos para Ana. Mas a civilização nunca vira Ana.

 

Rui trabalhava num pequeno café apenas algumas horas por semana, era homem de poucas palavras, não dava grande confiança às pessoas, mas sempre falava de Ana com muito amor, com paixão. Eram o casal perfeito. Viviam um para o outro, e Rui trabalhava pouco para poder ter todo o tempo para Ana. O mínimo para aconchegarem os seus estômagos.

 

Dizia-se que viviam numa cabana lá longe, na floresta, quase junto à falésia. Ana não trabalhava porque não precisava. A cabana não tinha luz, não tinha água, não tinha Internet nem condomínio, precisavam de pouco, apenas o suficiente para se alimentarem. Alimentavam-se essencialmente do amor um do outro, dizia Rui. Era o amor perfeito, o idílico dos livros, o das canções de amor e o dos poemas dos enamorados. Muitos diziam que Ana não existia. Rui jurava que sim, e que um dia a apresentaria à clientela.

 

Um dia uns caçadores ao passarem próximo da cabana da Ana e do Rui sentiram um cheiro nauseabundo. Apreensivos, desaceleraram o passo e aproximaram-se da cabana. E o cheiro pestilento cada vez mais intenso. Entraram.

 

E ali encontraram o que não queriam encontrar. E viram o que não queriam ver. Ana, pele e osso, acorrentada às paredes da cabana, já morta. Rui dava-lhe muito pouco para comer, e desta vez ela não conseguiu aguentar. Mantinha-a assim há vários anos. Ana nunca gostou de Rui e Rui nunca se conformou. Assim achou que iria ter Ana para sempre.

 

E eis que entra Rui de rompante, percebendo intrusos na cabana, pergunta aos caçadores o que estão ali a fazer. Os caçadores não deveriam de ali estar.

 

- Seguimos o cheiro, senhor! - Disseram os caçadores revoltados e chocados com o que acabaram de encontrar.

 

-  Peço desculpa senhores, é que não tenho frigorífico para a guardar. - Disse Rui, estranhamente tranquilo.

 

Rui fechou a porta atrás de si e até hoje mais ninguém viu os caçadores. Rui continuou a trabalhar tranquilamente no café algumas horas por semana e a falar do seu amor perfeito.

 

Fim.

 

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Espero que não se tenha notado muito a minha TPM neste texto!

Desafio de escrita dos pássaros #4 Beatriz disse que não. E agora?

Imagem retirada daqui.

 

Ele era tudo o que ela queria. Inteligente, carinhoso, bonito, apaixonante. Mas ele não era dela. Mas ainda assim ela suspirou por ele durante anos. Ou seriam dias? Ou apenas horas? Beatriz não sabe, com ele perdia completamente a noção do tempo. Beatriz amou-o em silêncio. Em silêncio achava ela, que os seus olhos gritavam, esbugalhados. Beatriz delineou em sonhos toda uma vida com ele, em silêncio. Em silêncio achava ela, que seu corpo sempre a denunciava. Beatriz amava-o e desejava-o como nunca julgou possível. Beatriz perdeu até o amor por si, para ter ainda mais espaço no seu coração para o amar, para o desejar, para o pensar e delinear.

Beatriz amava Dinis! Mas Dinis não era de Beatriz.

 

Dinis gostava de Beatriz... .

Gostava da forma como ela o olhava e o fazia sentir importante. Gostava da forma terna como ela o cuidava quando mais ninguém o fazia. Gostava até da forma ardente com que ela o desejava quando ele carinhosamente lhe atirava algumas migalhas, como um breve olhar ou uma palavra mais gentil. Beatriz fazia Dinis sentir-se único. Não. Dinis não gostava de Beatriz, mas gostava da forma como ela o fazia sentir. Heráldico. Importante. Especial. Ele que fora sempre desejado por muitas mas especial para ninguém.

 

Dinis não queria nada verdadeiro com Beatriz, só o suficiente para a manter interessada. Para a manter agarrada. Beatriz era a sua droga. E Dinis era a droga de Beatriz. Ela fazia-o sentir-se vivo. Dizia-lhe: "Um dia vou ter tempo para ti!". Mas nunca tinha. "Espera por mim que eu vou" Mas raramente aparecia. Mas Beatriz, tonta e sonhadora, agarrava cada migalha como se de um pão se tratasse; cada palavra como se de um livro inteiro fosse e cada olhar como uma esperança que logo se desvanecia, porque logo logo Dinis afastava Beatriz.

 

Sempre que Beatriz se afastava, Dinis dava-lhe um pouco mais da sua atenção, mais uma migalha da sua espécie de coração e Beatriz que se arredava, logo voltava. E aí voltava à dependência, aos sonhos, à imaginação dolorosa com a certeza da ausência. Dinis não queria Beatriz, mas Dinis também não queria não ter Beatriz.

 

E um dia abandonaram-no a mulher e os filhos e Dinis sozinho no mundo ficou, restando-lhe a única que verdadeiramente o amou e que ao lado dele sempre esteve.

 

"Fica comigo!"

 

E assim Beatriz teve o mundo aos seus pés e ouviu o que sempre sonhou, o que toda a vida esperou. E ele fez planos, e ele fez promessas, e ele... Agora ele... Agora ele era dela. Aquilo que ela sempre sonhou, tudo o que sempre desejou. Mas Beatriz sabia o que isso também significava: O papel de mulher não era melhor que o papel que ela já ocupava. 

 

E então Beatriz disse que não. E agora?

 

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Podem ler este, e outros textos do Desafio de Escrita dos Pássaros, aqui.

Quem conta um conto #16 Cartas Soltas IV

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Não temos uma banda sonora que nos caracterize, ou filme ou livro que nos relate porque não existimos. Não temos história. Não temos um passado, um presente e estamos longe de ter um futuro. Gostava que o nosso nós pudesse ter um futuro. Mas o nosso nós não existe. Não há musica, filme ou livro que descreva o que não existe. Porque não existe.

 

Gostava apenas de perceber, de saber, se compreendes a dimensão da história. A dimensão daquele pequeno papel colocado aparentemente ao acaso, mas tão propositado. Gostava de saber o que sentiste. Se te arrepiaste. Se te amedrontaste. Gostava de saber se sorriste. Gostava de saber se simplesmente ignoraste e nada sentiste. Gostava tanto de saber... E no meio de tanta questão existencial, gostava apenas de saber se viste. Se é que se pode ver o que não existe.

 

Não sou normal. Não me conheces mas esclareço-te que não sou normal. Passaste tanto tempo ao meu lado e nunca te vi. Nunca te tinha visto e agora... Agora... Agora fecho os olhos e bato na cabeça para deixar de te ver. Não te quero ver. Grito para mim que não existes. Mas adoras demonstrar-me que existes. Que és real. Ou então não.

 

Sou confusa. Tu és ainda pior que eu. Não me queres, não me amas, não me sentes. Mas fazes questão de deixar a tua marca para que eu te queira, para que eu te ame, para que eu te sinta.

 

Sou revoltada. Tu és ainda pior que eu. Se te afasto, se propositadamente te afasto, tu aproximas-te. Se eu me aproximo tu não te moves. Quiçá por medo, por cobardia ou simplesmente por ignorância. Não nos aproximamos os dois nunca. Mas afastamo-nos sempre em separado.

 

Sou apaixonada. Tu és ainda pior que eu. De mão em mão, de corpo em corpo. Procuras o que não é possível encontrar, porque não é possível encontrar quando não se sabe o que se procura. Talvez por isso não me procures a mim.

 

Não entendo onde a história nos irá levar... Mas irá-nos levar. Ou levar-me-á apenas a mim. Tu ficarás sempre imóvel no mesmo sítio.

 

E no final, porque o fim é sempre certo, fecho o livro, guardo-o na estante e tento seguir a minha vida como se nunca te tivesse conhecido e grito para mim que é só mais uma história.

 

É sempre só mais uma história.

O Tempo... Tic tac... Tic tac...

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O tempo.

 

Muito se poderia dizer sobre o tempo. Tic Tac... Tic Tac...

 

Há quem sinta que o tempo sobra, há quem sinta que o tempo falte. Para estes últimos, a gestão das prioridades é essencial, para que esse tempo estique, ou dê a noção de que estica, mesmo que não estique realmente. Aqui, há quem priorize erradamente, quer no que toca a questões, quer no que toca a situações, quer no que toca a pessoas. Essencialmente no que toca a pessoas. Tic Tac... Tic Tac...

 

Há por isso, quem um dia vá olhar para trás, e vá tentar priorizar diferente para tentar recuperar esse tempo, o tempo que perdeu estupidamente. Mas ao olhar para esse tempo que perdeu, vai perceber que já perdeu demasiado tempo e que já não há tempo para fazer diferente. Tic Tac... Tic Tac...

 

Há por isso, quem um dia vá olhar para trás, e vá perceber que não deu valor a quem devia de ter dado, que não abraçou vezes suficientes, que não beijou vezes suficientes, que não amou o suficiente. Tic Tac... Tic Tac... 

 

O tempo é escasso, o tempo foge... O tempo terminou. Tic Tac... Tic Tac...

 

Terminado o tempo resta apenas prosseguir com a vida, com o pesar das consequências, do tempo perdido, mas essencialmente com o pesar das pessoas perdidas. Porque agora que o tempo terminou já não se beija quem se queria beijar, já não se abraça quem se queria abraçar, e ama-se em silêncio e à distância, quem estava logo ali no sofá ao lado, mas que por falta de tempo, se esqueceu de amar.

 

Tic...                           tac...

 

O relógio deixou de se ouvir.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.