Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Quem conta um conto... #9 Proibido

bolinha.png

 

Conteúdo com bolinha vermelha. És menor, virgem ou apenas sensível... é melhor ires fazer qualquer outra coisa de útil para a tua vida.

 

 

quem conta um conto.jpg

 

Ela sabia que era errado, e apesar do nervosismo da primeira vez, conseguia manter uma aparente calma que fazia acreditar já ser recorrente. Vestiu o seu melhor vestido e calçou os seus melhores sapatos. Queria sentir-se bonita, ainda que não precisasse de grandes artefactos para tal. Dona de uma beleza natural e de um corpo escultural, qualquer modelo lhe assentava na perfeição. E era assim que Ana desejava estar: perfeita. Ana sempre fora bastante exigente consigo própria, era mestre em esconder sentimentos, e sempre ocultara a sua infelicidade com um sorriso doce. Ana aprendera desde cedo a esconder e a disfarçar as suas verdadeiras emoções, e esta era apenas mais uma vez. Precisava de se mostrar confiante, de mostrar que tudo estava sob o seu controlo, mesmo não controlando nada, efectivamente.

 

Com o aproximar da hora, sentiu-se mais nervosa, o esfregar constante do pulso que empenhava um belo relógio, oferecido pelo seu marido no seu último aniversário, era prova desse nervosismo, ainda que só quem a conhecesse bem, perceberia. Era a primeira vez que conhecia pessoalmente alguém das suas conversas online e a primeira vez que sentia desejos de estar com outra pessoa, desde que se casara. Sentia um misto de emoções: medo, ansiedade, excitação... sentia acima de tudo algo que já não sentia há muito tempo: sentia-se viva.

 

✽✽

 

Ele chegou descontraído, sem imaginar que a moça mais bela da pastelaria, era o seu encontro. Julgou ser apenas mais um, não era a primeira vez, por esse motivo não estava nervoso. Vasco era sempre assim, descomplicado, descontraído e até um pouco desleixado com a aparência, tendo em conta que os seus vinte anos há muito tinham ficado para trás. Estaria bem para um miúdo, mas Vasco entrara este ano nos quarenta e para sua mãe, era este desleixo o motivo do seu estado civil: "solteiro e bom rapaz" como orgulhosamente anunciava.

 

✽✽

 

Reconhecendo-o pelo livro que transportava - combinado previamente - Ana acenou-lhe assim que Vasco entrou - tinha escondido o seu, na sua bolsa para que pudesse facilmente esgueirar-se, caso a visão não lhe agradasse -  e convidou-o a sentar-se na sua mesa. Vasco desejou naquele momento, e pela primeira vez, estar mais apresentável, mas também não se deixou afectar por isso.

 

Conversaram alegremente, e quem os visse julgava serem amigos de longa data. Ana continuava a esfregar o pulso. Ana achava Vasco muito atraente, e começou-o a desejar cada vez mais, à medida que conversavam, até que sem rodeios e impulsivamente:

 

- Gostava de ir contigo para um local mais sossegado... - diz-lhe com uma voz sedutora que escondia o medo da rejeição.

- Eu moro aqui perto, queres ir até minha casa? - Diz Vasco admirado.

 

Normalmente era ele que tomava a iniciativa e o facto de não ter sido desta vez, deixou-o com ainda mais desejo. Era inegável que se sentia bastante atraído por esta mulher.

 

E assim seguiram calados o resto do tempo. Estava frio, era véspera de ano novo, e a chuva intensa molhava-lhes o corpo e gelava-lhes os ossos. Nenhum dos dois tinha guarda-chuva. À entrada do prédio, Ana deixou de resistir aos seus impulsos e esqueceu o frio que sentia. Agarrou Vasco ainda no corredor, e começou a despi-lo com fulgor e com uma urgência que só ela compreendia. Vasco não resistiu, meio atónito, mas não resistiu, levando-a para um espaço do prédio que ele próprio desconhecia. A casa das máquinas era um espaço apertado, bafiento, e sem luz natural, perfeito para crimes da alma, carregados de culpa e segredos. E foi ali mesmo, que Vasco suportou Ana no seu colo e a possuiu com a perícia e entrega de quem conhece realmente uma mulher. Ana gemia de prazer enquanto Vasco tentava, sem grande sucesso tapar-lhe a boca para que os gemidos não os denunciassem. Ana sentia o verdadeiro prazer que há muito desejava. Esqueceu inclusive, naqueles instantes quem era, o que ali estava a fazer, qual o seu propósito, pretendendo apenas aproveitar aqueles momentos que sabia que rapidamente passariam. Era hora de aproveitar o seu prazer, finalmente. Podia deixar de fingir, de fazer o que os outros esperavam que ela fizesse. Ali poderia ter o desejo dela sem culpa, sem pressões, sem mentiras nem fingimentos. Os corpos molhados, com paixão, aos poucos aqueciam e o suor que de ambos escorria fazia perceber o calor que os dois corpos continham e que não mais conseguiam suportar.

 

Cansados e extasiados deixam-se cair pelo chão e Ana, pela primeira vez em muitos anos, voltara a rir, a rir verdadeiramente, com sentido e sinceridade. Vasco tentou beijá-la mas Ana recusara amavelmente dando lhe um beijo sincero e carinhoso na face ruborizada.

 

Não sabe quando tempo passara desde que tinham caído os dois no chão. Pareceram-lhe  breves instantes, mas o relógio indicou um tempo mais longo. Apressada, levanta-se e veste-se. O espaço tinha pouca luz e a silhueta de Ana que reflectia nas paredes brancas e sujas fizeram Vasco deseja-la novamente, puxando-a para si. Mas Ana recusa os investimentos do homem que quase implorava pela sua atenção, e despede-se dele, com a certeza que não mais se voltariam a encontrar.

 

Arrependida? Não. Ana tinha perfeitamente consciência do que tinha acabado de fazer e estava feliz, porque naquele crime da alma tinha encontrado novas forças para continuar com a sua vida, à luz dos outros, tão perfeita. Poderia assim voltar para a cama do homem que não lhe provocava qualquer desejo, e para a sua vida que não lhe trazia qualquer felicidade. Mas agora Ana tinha novas forças, novo ânimo. 

 

 ✽✽

 

Estava muito frio, e a neve começou a cobrir as ruas. Era quase ano novo e era altura de regressar para junto do seu marido e filhos, para preparar a ceia que há muito estava programada. Ana estava mais sorridente que o normal, mas ninguém reparou, como era habitual. Ela estava mais bonita, com uns olhos mais brilhantes, mas ninguém reparou, como nunca reparavam. E assim prosseguiu com a vida que escolhera para si e nunca mais falara com Vasco, embora o visse todos os dias nos seus sonhos.

11 comentários

  • Imagem de perfil

    Mula 28.12.2015 18:32

    Andavas desaparecido... Mas fala-se em possessões, excitações e facadinhas... e apareces tu! Tens faro, tu! Image
  • Imagem de perfil

    Varufakis 28.12.2015 18:35

    Eu tenho um sexto sentido Image
  • Imagem de perfil

    Mula 28.12.2015 18:39

    Deve ser isso, deve! ahahahahahaha
    Mas e então.. e opiniões? Não há? Posso continuar, ou esquecer o estilo? Image
  • Imagem de perfil

    Varufakis 28.12.2015 18:44

    Eu acho o estilo erotico muito insonso, sou mais do mete aqui tira ali e pimba... Toma e embrulha que é para oferecer!
  • Imagem de perfil

    Mula 28.12.2015 18:52

    Oh céus...Image
  • Imagem de perfil

    Varufakis 28.12.2015 18:54


    A única coisa erótica que sei dizer é algo do tipo:
    "Não vai doer eu sou meiguinho, só custa a cabecinha, o resto é pescoço!"Image
  • Imagem de perfil

    Mula 28.12.2015 18:57

    Image

    Pobre de quem te atura...
  • Imagem de perfil

    Varufakis 28.12.2015 18:59


    O que eu disse foi meiguinho, reflete alguém que se preocupa com o bem estar das Varuzinhas!
    Não percebo qual é o Drama! Image
  • Imagem de perfil

    Mula 28.12.2015 19:00

    Tanta meiguice... vê lá se não te afogas com tanto mel! Image
  • Imagem de perfil

    Varufakis 28.12.2015 19:02

    Eu não uso Mel, uso outras substancias!Image
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.