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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Quem conta um conto #16 Cartas Soltas IV

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Não temos uma banda sonora que nos caracterize, ou filme ou livro que nos relate porque não existimos. Não temos história. Não temos um passado, um presente e estamos longe de ter um futuro. Gostava que o nosso nós pudesse ter um futuro. Mas o nosso nós não existe. Não há musica, filme ou livro que descreva o que não existe. Porque não existe.

 

Gostava apenas de perceber, de saber, se compreendes a dimensão da história. A dimensão daquele pequeno papel colocado aparentemente ao acaso, mas tão propositado. Gostava de saber o que sentiste. Se te arrepiaste. Se te amedrontaste. Gostava de saber se sorriste. Gostava de saber se simplesmente ignoraste e nada sentiste. Gostava tanto de saber... E no meio de tanta questão existencial, gostava apenas de saber se viste. Se é que se pode ver o que não existe.

 

Não sou normal. Não me conheces mas esclareço-te que não sou normal. Passaste tanto tempo ao meu lado e nunca te vi. Nunca te tinha visto e agora... Agora... Agora fecho os olhos e bato na cabeça para deixar de te ver. Não te quero ver. Grito para mim que não existes. Mas adoras demonstrar-me que existes. Que és real. Ou então não.

 

Sou confusa. Tu és ainda pior que eu. Não me queres, não me amas, não me sentes. Mas fazes questão de deixar a tua marca para que eu te queira, para que eu te ame, para que eu te sinta.

 

Sou revoltada. Tu és ainda pior que eu. Se te afasto, se propositadamente te afasto, tu aproximas-te. Se eu me aproximo tu não te moves. Quiçá por medo, por cobardia ou simplesmente por ignorância. Não nos aproximamos os dois nunca. Mas afastamo-nos sempre em separado.

 

Sou apaixonada. Tu és ainda pior que eu. De mão em mão, de corpo em corpo. Procuras o que não é possível encontrar, porque não é possível encontrar quando não se sabe o que se procura. Talvez por isso não me procures a mim.

 

Não entendo onde a história nos irá levar... Mas irá-nos levar. Ou levar-me-á apenas a mim. Tu ficarás sempre imóvel no mesmo sítio.

 

E no final, porque o fim é sempre certo, fecho o livro, guardo-o na estante e tento seguir a minha vida como se nunca te tivesse conhecido e grito para mim que é só mais uma história.

 

É sempre só mais uma história.

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.