Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Quem conta um conto #15 A rapariga dos sapatos amarelos

Logo1

 

Chegou a casa e descalçou os seus sapatos amarelos, os seus favoritos da estação. Deixou-se cair no sofá cansada e quando olhou para o relógio, várias horas tinham-se passado desde que chegara a casa. Deixou-se dormir. Naquele momento deu-se feliz por estar sozinha, por não ter uma família que dependesse de si. Sentia-se tão cansada... No entanto, largou inconscientemente um suspiro. Por vezes, gostava de ter um jantar para preparar, ter roupa de alguém para passar e lavar, ter fraldas para mudar, ter algo para fazer que não fosse apenas para si e cuidar de si. Mas logo abandonou a ideia. Sabia que isso não seria possível. Que isso há muito que não a fazia feliz.

 

Rosa, há muito que estava sozinha, com os filhos já criados, há muito que não conhecia a casa com barulho. Sempre com a televisão desligada, e alguns livros na escrivaninha onde por vezes rabiscava, a vida de Rosa era assim: aos olhos dos outros, vazia. Desde o divórcio que Rosa não se relacionava com homens, excetuando relações fortuitas, de uma noite apenas, para satisfação própria, porque precisava, porque sentia vontade, porque necessitava por vezes de perceber que ainda está viva, que ainda sente, que ainda se podem interessar por ela, desejá-la e beijá-la. Mas há muito que deixou de conseguir ter um homem em sua casa. Ela percebeu-o no dia em que pediu o divórcio. Era injusto para si. Era injusto para o outro. Rosa deixou de saber viver acompanhada.

 

Rosa e Marco foram um casal feliz outrora. Conheceram-se num seminário de saúde e casaram-se em poucos meses. Um ano após o casamento tiveram Maria, e logo a seguir, tinha Maria apenas um ano, veio o Pedro. Um casamento desejado, dois filhos desejados, um percurso feliz. Quando os filhos cresceram, Rosa e Marco puderam voltar a dedicar-se inteiramente ao trabalho, e cada vez eram menos as horas que passavam em casa. Quando Maria e Pedro se casaram e saíram de casa, Rosa e Marco já mal se viam. Tentavam sempre que podiam sair da rotina. Marcavam escapadinhas aqui e ali. Tentavam aproveitar cada minuto que tinham um com o outro. Os fins-de-semana um com o outro eram efetivamente um para o outro: viviam-se, amavam-se e desejavam-se como quando tinham apenas 27 anos e se conheceram. Mas assim que regressavam a magia terminava, as discussões recomeçavam e o casal novamente se afastava. Rosa não tinha tempo para Marco. Marco não tinha tempo para Rosa.

 

Mas Marco começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Rosa dedicava-se cada vez mais à sua profissão e cada vez tinham menos tempo um para o outro. Um dia Rosa com saudades do seu Marco surpreendeu-o fazendo-lhe uma visita surpresa ao local de trabalho. Mas Rosa, que queria surpreender acabou surpreendida, e viu o seu Marco com uma jovem de sapatos amarelos. Beijava-a como já beijou Rosa, acariciava-a como já tinha acariciado Rosa, desejava-a como já tinha desejado Rosa. Rosa focou, não querendo acreditar. E tudo não passou de uma miragem. Rosa vira-se a si mesma com Marco, jovens apaixonados e logo percebeu que isso já não existia. Espreitou para o gabinete e viu Marco com um ar cansado, com o rosto demarcado das rugas. Infeliz. Percebeu ali que podiam fazer muito mais um pelo outro, que poderiam arranjar tempo se assim o desejassem. Só que na realidade já nada os prendia a não ser o passado. Rosa entrou, sentou-se e conversaram horas. Conversaram como há muito não conseguiam.

 

Até ao divórcio sair foi um instante. Porque é simples, agora com apenas alguns passos, dar por terminada toda uma vida em conjunto. À saída da conservatória Marco tinha menos rugas, estava com ar aliviado. Pronto para encontrar alguém com tempo para si, para a vida.

 

Assim Rosa recomeçou a sua vida, sozinha, dedicando-se interiranente à profissão, que era o que verdadeiramente lhe dava prazer. Que era o que realmente se sentia capaz de fazer. E quando sentia saudades da sua vida passada, do seu Marco, calçava os sapatos amarelos, os seus favoritos da estação, recordava com um sorriso no rosto o dia em que Marco lhos oferecera e em como eram felizes nessa altura. E deixava-se cair no sofá cansada, saudosa, mas feliz.

 

Porque nem sempre o que os outros têm é o que desejamos para nós.

3 comentários

  • Imagem de perfil

    Mula 14.10.2016

    Oh... obrigada! Enches-me sempre o ego! ^_^
    É muito verdade! Por exemplo, não seria um modo de vida para mim, mas não é por não ser para mim que não possa encher as medidas a outra pessoa. E mais: não é por me servir hoje, que me continua a servir amanhã. Os tempos mudam, as pessoas mudam, e acho que não devemos julgar ninguém... mas é tão mais fácil julgar... :\
  • Imagem de perfil

    Psicogata 14.10.2016

    Estamos sempre prontos a julgar, é uma pena que não estejamos antes prontos a compreender.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.