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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Operação Respirar # 2 Pós-operatório

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O Hospital Pedro Hispano, onde fui operada, não tem grande espaço, então em vez de ficar na ala de otorrino - que até tem quartos individuais - fui para a ala de urologia e partilhei o meu quarto com mais duas pessoas. Uma totalmente acamada em estado vegetal, que até metia dó, e uma senhora que tinha um problema num olho. Era vizinhança simpática mas muito barulhenta. A senhora acamada ressonava de noite e de dia, e a senhora que tinha o problema no olho, também deveria de ser um pouco surda porque via televisão com o som demasiado alto e tinha visitas desde a hora que se levantava até à hora de deitar. E o telemóvel? Nem sabia que era possível um telemóvel tocar tão alto! Sempre que ele tocava parecia a 3ª Guerra Mundial, e eu ficava com vontade de a matar. Por isso, eu que só queria estar sossegada - aliás era a única em pós-operatório, acho que merecia algum descanso -, tive com barulho o tempo todo. Enquanto tive o efeito da anestesia ainda consegui descansar minimamente, depois foi simplesmente uma tarefa impossível. Ansiedade nos píncaros! 

 

Entretanto a anestesia foi passando e eu fui acordando...

 

Quando acordei, percebi de imediato que a recuperação ia ser mais difícil do que previ. Sempre me disseram que era difícil, mas confesso que não estava preparada para o quão difícil. Disseram-me que sentiria apenas desconforto, que dores não teria muitas, mas dores tive sempre muitas e os analgésicos não aliviavam. Aliás cheguei a ter de implorar às enfermeiras por mais drogas, porque as que me davam não faziam efeito e poucas horas depois eu ficava num estado lastimável. O que ainda me aliviava as dores era o gelo. Mas nem esse era fácil de conseguir, acho que teria conseguido mais depressa morfina do que gelo. Sabemos que estamos num país em crise quando deixam acabar gelo num hospital: "deixaram acabar o gelo... vamos ter de pedir para fazer mais, ainda vai demorar..." E não mentiram. Demorou. Demorou quase 2 horas a darem-me gelo. E quando me trouxeram, lá me trouxeram duas ou três pedrinhas, mas já foi melhor que nada e eu estava com tantas dores, que apesar de me terem dito "fique uns 15 minutos com o gelo" eu fiz gelo para aí durante 1 hora que a auxiliar até brincava comigo: "Nem vai precisar de ir ao ginásio, de tão tonificada que vai ficar nesses braços!" A malta de uma forma geral foi muito simpática comigo, tive muita sorte com a equipa de auxiliares e enfermeiras que me calhou, do mal o menos.

 

Quando despertei totalmente comecei uma luta interna. E não foi só com a vontade de espirrar. Eu não me podia levantar, isso já me tinham dito. Mas estava desde as 7h da manhã sem ir à casa-de-banho... E já eram umas 15h... e eu já tinha alguns litros de soro em mim... Tem de ser. Decido chamar alguém, basicamente tive que escolher entre a humilhação de fazer xixi nas calças e na cama, ou de pedir ajuda para tal. Chega lá um moço, auxiliar - estagiário pareceu-me - e lá lhe expliquei o que precisava. Senti que o moço ficou mais assustado que eu. Tranquilizou-me tanto isso - #sóquenão - mas lá foi buscar ajuda e veio de imediato uma auxiliar que me resolveu de imediato a situação sem me deixar demasiado nervosa, agiu com a naturalidade expectável, e deixou-me super confortável. Mas digo-vos que depender de terceiros para uma necessidade tão básica é horrível. Mas adiante, jurei para mim própria que iria aguentar-me até conseguir levantar-me e ir pelo meu próprio pé. E assim foi. Ir à casa de banho era sempre um assunto muito tabu "ai não se levante, que ainda não sei se pode! Espere que eu já vou chamar alguém!"; "Foi à casa de banho sozinha? E se se tivesse sentido mal? Para a próxima tem de chamar alguém..." Até que comecei a optar por fazer a coisa quase em segredo, como se tivesse ido roubar a farmácia do hospital, pé ante pé, rapidinho. Estar no hospital é uma aventura.

 

Quanto às refeições... Não falemos sobre isso! Eu sei que a comida nos hospitais não é boa, mas não era preciso ser tão má, é que vocês sabem, eu não sou esquisita, aqui com a Mula marcha tudo - é esse basicamente um dos meus grandes problemas - mas as duas sopas dos dois dias eu não consegui comer. A segunda era só estranha, mas a primeira posso assegurar-vos que sabia a ferrugem, ao ponto de eu achar que estava com sangue na boca... Mas não estava! Passei tanta fome, mas tanta fome, que dou graças à francesinha que almocei na véspera e que deve ter ajudado a alimentar este meu corpo guloso durante umas boas horas e só por isso não desmaiei de fraqueza.

 

Confesso que com as horas a passar que comecei a acreditar que se tinham esquecido de mim. Disseram que a médica viria de manhã para me dar alta mas só recebi a alta ao final do dia. Comecei a achar que teria de ali passar mais uma noite... E confesso que comecei a panicar. Felizmente não. No final do dia, lá me foram buscar para ir à médica destamponar e receber as recomendações para me mandarem embora.

 

A operação pelo que percebi correu melhor do que o esperado, porque me disseram que teria uns tubos no nariz, e que depois viria com a tala para casa, mas só me tamponaram e vim para casa com o nariz já totalmente aberto sem tala, e com apenas um pontinho em cada lado no nariz, mas internamente que saem com o tempo. Disseram-me também que iria ficar congestionada como se estivesse com gripe e isso felizmente também não aconteceu. Assim que me libertaram o nariz tive uma noite tranquila e a respirar melhor que nunca.

 

Estava a sentir-me bastante alegre e satisfeita com o resultado, já que respirava como nunca, até ter olhado para o espelho a primeira vez...

 

Ansiedade aos píncaros assim que me olhei ao espelho... Fiquei totalmente sem expressão, parece que me submeti a uma operação estética e que fui toda esticada... E aí o pânico, a ansiedade, a vontade enorme de chorar... Comecei a achar que teria de fazer uma outra operação para pôr a minha cara como estava, e que teria de passar por tudo isto novamente... E disseram-me que não, que estou assim apenas por estar inchada. E pronto, agora tenho de esperar que a cara desinche para ter a certeza que não vou virar a noiva feia do Spock, porque sinceramente, para já, é assim que me sinto... E começa a bater um arrependimento de me ter submetido a isto...

 

Em breve conto-vos como está a ser a recuperação... Fiquem desse lado.

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