Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

O túnel

Já há muito tempo que não entrava no túnel, e que não ouvia as pessoas lá ao fundo, como se estivessem longe de mim. Já há muito tempo que caminhava sóbria em casa, nos restaurantes, nas ruas... Mas no fim-de-semana foi diferente, e o problema que me assaltava na infância voltou a assaltar-me novamente.

 

Os médicos nunca me souberam compreender, ou eu é que nunca me consegui explicar, mas o túnel às vezes encerra-me em si e eu fico distante e sinto-me distante, tão distante como se não me conseguissem tocar.

 

"É como se de repente estivesse a sonhar e conseguisse olhar as pessoas de fora do meu círculo" foi o que sempre comuniquei aos xôs doutôres que me analisavam e que me tentaram escarafunchar a mente como se de uma cobaia se tratasse. Após dois ou três encefalogramas e outras tantas análises, nada de errado eu tinha, e os médicos foram desvalorizando, como se fosse só uma criança carente de atenção. Mas eu continuava a entrar no túnel e no sonho aparente, e continuava-me a queixar, até que os médicos convenceram a mãe a deixar de trabalhar que isto era "falta da mãe" diziam! Talvez tivessem razão. E com a presença mais assídua da mãe, deixei, por vários anos de entrar nesse túnel que me sugava a alma e a deixava fora do meu corpo. E durante anos apenas permaneceu a lembrança desses tempos, dos tempos em que eu deixava de agir, e ouvia os outros à minha volta a falarem, sem que eu conseguisse interagir, com aquela sensação de que se quer correr mas o corpo não corresponde ao pedido da mente.

 

Mas parece que não se pode fugir para sempre desse estranho túnel inexplicável, e no fim-de-semana, voltei a entrar nesse túnel. No meio de uma multidão, de um barulho ensurdecedor, voltei a ver as pessoas a passarem por mim mais rápido do que realmente andavam, mais longe do que realmente estavam, e inexplicavelmente consegui encontrar o silêncio dentro de mim como se a música tivesse simplesmente parado. Tentei, em vão que a minha alma reentrasse no corpo e que voltássemos a ser um só, mas só quando por fim encontrei o silêncio, um silêncio real e não adulterado é que me reencontrei comigo mesma, e voltei a ser eu, alma, ouvidos e visão normal.

 

Muitos acharão que nessa noite bebi mais do que a conta, a sensação é realmente a mesma, mas os meus lábios não tocaram em álcool, a não ser que a coca-cola tivesse sido adulterada à lata fechada, e assim após tantos anos de descanso, deixo novamente de conseguir estar em locais com demasiada gente e barulhentos sem que me perca por entre as gentes e me veja do lado de fora, como se de um sonho se tratasse.

 

Acho que ainda hoje não consigo explicar verdadeiramente o que me acontece nesses breves minutos no túnel.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.