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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

O início...

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Sempre gostei de escrever. No entanto, durante muitos anos, apenas conseguia escrever poesia, parecia que em prosa as palavras não fluíam...

 

Comecei a escrever poesia era eu ainda uma criança. Lembro-me que o meu primeiro poema foi escrito com a ajuda da minha professora, porque eu mal sabia escrever, e escrevi-o para mostrar à minha mãe o quanto ela era especial para mim. Tinha eu uns 6/7 anos, e o dia da mãe estava à porta. Fico feliz por saber que ela ainda o guarda religiosamente na gaveta do móvel do hall, juntamente com outros desenhos e prendinhas.

 

Depois, na adolescência, comecei a escrever para me libertar do sofrimento que as paixões me causavam. Parecia que a minha imaginação poética andava a par e passo com o meu sofrimento. Sempre em rima, parecia que era obrigatório um poema rimar, e aquele que não rimasse estava condenado à lixeira e era para lá que eles iam.

 

Escrevia em papel... riscava e reescrevia vezes sem conta, amarfanhava folhas e enchia o quarto de papel. Agora já não sei o que isso é. Com os dedos cravados nas teclas do computador, vou escrevendo e reescrevendo textos que me dão prazer. Sem poder regressar ao que se apaga, às vezes perdem-se ideias e perdem-se textos. Já no papel isto não acontecia, que eu nunca riscava de forma a não poder reler. É a evolução. Há quem diga que há vantagens, há quem diga que há desvantagens, eu admito a ambivalência.

 

 

Quando estabilizei e a fase dramática da adolescência parou, parece que toda a minha inspiração se esfumaçou. Só sabia escrever sobre mim, e já não havia muito a dizer, parece que deixei de saber rimar...

 

Com o tempo, reaprendi a escrever e criei um blog de poesia - Café Poesia - onde reescrevi alguns poemas antigos e onde criei novos até à 5 anos atrás.

 

Comecei a conseguir criar personagens na minha cabeça e escrever sobre uma história que nunca existiu, sobre alguém que não conheço, como se fosse eu. Sobre um "eu" imaginário. A concretização desse "eu" imaginário deu-se quando uma professora pediu:

"Escrevam um poema como se fossem um heterónimo de Fernando Pessoa, tendo em conta as características de cada um."

 

"Que grande responsabilidade esta!" pensei.

 

Escrevi como se fosse Álvaro de Campos - o pobre coitado se tivesse realmente existido e morrido, estaria na altura a remoer-se e a dar voltas nas catacumbas. Modéstia à parte, que um pouco de gabarolice nunca fez mal a ninguém, gostei do resultado e valeu-me um terceiro prémio num concurso local de poesia.

 

Daí, até conseguir escrever em prosa - ainda que com um toque poético - foi um saltinho curto.

 

 

Caso gostem de poesia, partilho convosco o dito poema:

 

Desabafos de uma Vida Inutil

 

Perdido naquilo a que chamam vida,
Sofro com tudo aquilo que não sou!
Sofro com tudo aquilo que desejava ser…
…Saudades de ser verdadeiro!

 

Para quê esforçar-me,
Se a chuva que bate nas vidraças me tira a força?
Ping…ping… ping…
O ensurdecedor barulho do silêncio!

 

Só as pingas de água se fazem ouvir,
Também elas parecem sufocar,
Também elas parecem pedir ajuda!
Mas finjo não as ouvir,
Como os outros fingem quando por eles passo!

 

Quero ficar perdido entre os lençóis,
Dormir um dia, um mês, ou até quem sabe um ano!
Chorar sem que ninguém possa escutar o meu sufoco!
Mas… alguém escutaria mesmo?

 

Na realidade já o posso fazer…
Será isto que desejo na verdade?
Não! Desejaria que alguém me notasse,
Desejaria que alguém me apoiasse…
Mas apenas as pingas de água me conseguem realmente tocar!

 

Fico então aqui perdido,
Enquanto pelas molhadas janelas observo as ruas sujas,
Em que corpos desnudos se vagabundeiam.
Vida que corre à minha frente…
Morte que anda a par e passo…

 

Pobre ser, que assim tão novo,
Implora que a cova se abra e que lá caia!
Pobre ser, que tão prendado,
Deseje terminar tão depressa seu fado!

 

Outrora, cantei às alegrias, à revolução.
Agora… apenas à minha frustração!
Outrora, fui pneu que rolava por entre opulentos campos,
Agora… Sou apenas Campos que chora!

 

Agora.

 

Continuo vivendo na tristeza da vida,
Esperando que a felicidade da morte me leve,
Aguardo olhando para a vida que passa,
Ouvindo a chuva que bate na vidraça!

 

See You*

 

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.