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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Diário de uma desempregada #2

É às segundas-feiras, essencialmente, que os desempregados se sentem desempregados. Ainda mais desempregados. Às segundas-feiras, familiares e amigos regressam ao burgo, enquanto o desempregado fica em casa, ou vai dar uma caminhada, ou vai fazer qualquer outra coisa que não trabalhar, não que seja menos importante, apenas é não remunerado. Desemprego está longe de ser sinónimo de desocupação. Eu estou desempregada há mês e meio, mais dia menos dia, e ainda mal parei, foram poucos os dias em que estive desocupada realmente. 

 

Estar desempregada é viver em ansiedade constante e depositar toda a esperança no telemóvel: É estar constantemente a olhar para o telemóvel e a pesquisar números de chamadas perdidas - Será da empresa x? Ah não... Afinal é só da Deco, ou da Barclays, ou de uma qualquer empresa de telecomunicações -, é sair da casa de banho a correr de calças na mão à procura do telemóvel perdido que está a tocar, mas que afinal é só a mãe ou o marido. Estar desempregada é enviar currículos atrás de currículos e esperar chamadas que tardam e que muitas das vezes - a maior parte das vezes - nunca chegam.

 

Estar desempregada é não poder fazer planos, porque os planos podem nunca poder vir a ser concretizados e por isso estar desempregada significa não poder aproveitar promoções das companhias aéreas - olhem que fútil esta Mula! - porque estar desempregada é não saber o que se vai fazer amanhã, nem na próxima semana, nem no próximo mês. Estar desempregada é ter de estar 100% disponível, hoje, amanhã e sempre, porque nunca sabemos quando é que a oportunidade pode surgir.

 

Fui inscrever-me no Centro de Emprego - como se o Centro de Emprego arranjasse emprego a alguém... - e o senhor perguntou-me porque nunca tinha estagiado na minha área. A sério? Porquê? Sabe lá ele que acabadinha de largar as fraldas da faculdade, fui bater a todas as portinhas que conhecia, de currículo em punho, a oferecer-me para estágio profissional. Sabe lá ele as candidaturas via e-mail a propor-me para estágio. Sabe lá ele o que eu já caminhei até desistir...

 

Sim, desistir. Bem sei que é quase impossível de arranjar trabalho na minha área, e cada ano que passa será cada vez mais difícil. Se não encontrei como recém licenciada, ninguém contratará uma já licenciada há 3 anos sem experiência, nem para estágio, nem sem ser para estágio. Ponto final, parágrafo. Mas também, não me choco por isso, não choro por isso, não imploro por isso. Desisti e resignei-me, porque sei que posso ser feliz em muitas outras áreas por muito que fujam do âmbito dos meus estudos, não preciso de ser educadora social para ser feliz, e por isso resignei-me e andei para a frente, que atrás vem gente. Não que não envie currículos quando encontro anúncios, claro que envio. Mas há muito que sei que é como enviar flores para os mortos: vão ser recebidos, mas não vão ser respondidos.

 

Perguntaram-me numa entrevista de trabalho, por que é que tinha acabado os estudos tão tarde. Descobri que licenciar-me apenas aos 23 anos é tarde. Que menina de bem entra para a faculdade o mais tardar aos 18 e aos 21 é já licenciada. Eu aos 21 estava a terminar o ensino secundário, porque aos 16 desisti dos estudos porque precisava de dinheiro e não consegui trabalhar, estudar e ser boa aluna em simultâneo. Aprendi desde cedo que a vida é feita de escolhas e eu fiz a minha. Por isso, estar desempregada é também levar com os estereótipos de quem se julga em posição de julgar.

 

No fundo, todos se julgam em posição de julgar...

 

Estar desempregada é só e no fundo, uma treta.

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