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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Coerência

Sou muita coisa má: tosca, inculta, bruta, rancorosa, ... Mas no meio de tanto defeito tenho uma qualidade da qual me orgulho muito, apesar de à luz da sociedade ser só mais um defeito: Sou coerente.

 

Hoje é o dia em que as pessoas se juntam todas, e se enfiam nos cemitérios em vez de centros comerciais. É o dia em que gastam um dinheirão em flores caras e bonitas, porque as suas campas vão ser vistas, apreciadas e comentadas. No fundo, o Dia de Todos os Santos, ou o Dia dos Mortos como sempre lhe chamei, é um bocadinho como as cascatas Sanjoaninas na altura do S. João no Porto, ou como os desfiles dos Santos Populares em Lisboa. Cada marcha quer ser a melhor. Também ali nos cemitérios cada família quer ter a campa mais bonita e grandiosa, com velinhas a arder a condizer. E ali, no meio de algumas pessoas que efetivamente sofrem, há pessoas que fingem estarem triste e que fingem ser devotas. Porque é o dia que tiraram da sua vida para serem tristes e devotas. No resto do ano ninguém quer saber, mas há que neste dia dar importância, antes que o feriado volte a ser inexistente. Eu também gosto do feriado. Como gostaria que existisse o feriado do Nosso Senhor do Cotão. Gosto de feriados. Ainda que na maior parte das vezes esteja a trabalhar, mas nem sempre foi assim.

 

Quando era pequena era obrigada a ir ao cemitério, claro. Tinha de usar roupas escuras, mas ir vestida a rigor, como quem ia para um casamento ou um batizado, e lá passávamos o dia. Quem me obrigava a ir era o meu pai. Apesar de no resto do ano pouco ou nada - era mesmo nada - ligar à campa da minha avó. Aliás, se não fosse a minha mãe - que nunca se deu com a minha avó -  a cuidar daquela campa, anos a fio estaria ao abandono. Ele não queria saber. Mas no dia 1 de Novembro era diferente. As pessoas falavam das pessoas que não apareciam e não enfeitavam as campas para o dia 1 de Novembro. Ainda que ninguém falasse de ninguém sobre isso o resto do ano. Mas no dia 1 de Novembro é diferente. Hoje que olho o dia com distância, percebo que faltam cervejas e música, porque as pessoas vão para ali para conviver, tal como quem vai a um bar ou a um café. Pelo menos assim é na minha terra. Já lá não vou há anos, mas sei que assim continua a ser. As pessoas aproveitam para conversar com pessoas que no resto do ano não têm tempo, e aproveitam essas pessoas para falarem acerca de outras. Sim, na minha freguesia aproveitava-se este dia para colocar as coscuvilhices em dia. Tão coerente não é verdade? No entanto quando tinha 5 anos, fui obrigada a despir o meu favorito fato de veludo porque era vermelho e "o vermelho desrespeitava os mortos".

 

Hoje não vou ao cemitério, não vou enfeitar a campa onde o meu pai se encontra, não vou lá pôr flores ou velas, nem conviver com outros seres que não conheço de lado algum só porque é dia 1 de Novembro. O meu pai para mim já tinha morrido antes de ter efetivamente morrido e eu no resto do ano também não quero saber daquela campa. Porque haveria de ser diferente neste dia? Não é diferente. Para mim não é diferente. Para mim as pessoas boas são sempre boas, e as pessoas más são sempre más. Para mim as pessoas não passam de bestas a bestiais só porque morreram. Não. As pessoas que eram más, só deixaram de ser más porque já cá não estão, porque se cá continuassem nada teria mudado.

 

Sou coerente. Deixei de querer saber dele em vida, também não quero saber dele em morto.

 

Sei que a sociedade me julga, alguns ex-vizinhos e familiares me julgam. Diz a sociedade que pai é pai e mãe é mãe, sejam bons ou maus. Disseram-me vezes sem conta que não podia guardar rancores porque ele era meu pai, que não lhe podia virar as costas porque ele era meu pai e que eu nada podia fazer contra isso. Que os pais não se escolhem, e que é obrigação dos filhos cuidar dos pais sempre, independentemente do que eles nos façam. Vários outros me demonstraram também eles fazerem sacrifícios pelos familiares que não mereciam. Acho que o faziam para dormirem de noite, não porque verdadeiramente o quisessem fazer. A sociedade cria os piores demónios interiores. Mostrei a muita gente que estavam enganados. Na cabeça de muitos deles sou uma espécie de monstro. Cada um que faça aquilo que achar melhor para dormir de noite mais confortável, mas eu não faço o que a sociedade me pede e quer, só porque é o que sociedade pede e quer. Faço o que sinto que devo fazer, achem os outros correcto ou não. Choquem-se... Durmo descansada à noite!... 

 

Sim... Sou muita coisa, mas acima de tudo, sou coerente.

4 comentários

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    Mula 01.11.2016

    Acho que as campas representam a vida, e quando as pessoas valiam a pena e gostávamos delas, devemos continuar a cuidar dessas mesmas campas, quando as pessoas não nos diziam nada ou quando não havia ligação, ou a ligação que existia era má, é normal que as campas fiquem ao abandono... Tem tudo a ver com ligação... Eu confesso que não sou fã de cemitérios. Fui ver o de Highgate em Londres pelo valor histórico e arquitetónico, mas é um local que me deprime... Fico a pensar no que aconteceu àquelas pessoas, essencialmente quando vejo crianças e bebés... Dá-me um grande aperto no coração.
    A campa do meu pai não está abandonada. Há alguém - desconhecemos quem - que vai lá com frequência lavar e decorar ... provavelmente uma das muitas mulheres dele... não sei. Não fazemos mesmo ideia.
    Mas este dia, é um dia tão cheio de hipocrisia e cinismo que me se arrepiam tudo o que é pelos e cabelos!...
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    Maria Araújo 01.11.2016

    Depois do funeral da minha mãe, estive  cerca de 3 ou 4 meses sem ir ao cemitério.
    Tinha algum horror, sentia que cheirava a morte.
    Um dia, decidi entrar.
    Até hoje, nunca mais tive receio e /ou senti nada..
    Se há dias que a choro, e ao meu pai e aos meus irmãos, e ao meu cunhado , outros há que "peço" pelos filhos que deixaram.
    É um lugar onde me sinto em paz.
    Mas quando morrer quero ser cremada.
    "Que horror!", pensas tu, escrever estas coisas nos meus comentários?
    Desculpa, Mula, foi o que senti.
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    Mula 01.11.2016

    Não é nada horror! Eu sinto o mesmo. E acho que são coisas em que devemos pensar. Também vejo o enterro como uma coisa demasiado má... Acho que qualquer uma das opções me assusta... A morte em si assusta-me imenso...
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