Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Chocam-me os que assistem e aplaudem...

Muito mais do que os que insultam, dos que os que batem, do que os que acusam e humilham.

 

O assunto está na moda uma vez mais, fala-se nas televisões, fala-se nos blogues, fala-se na vida real. Mas vou falar-vos hoje do que mais me choca nesta coisa da violência, do bullying e da humilhação pública.

 

Quando vejo um vídeo em que a pessoa A está a ser agredida pela pessoa B, o que me choca não é a agressão. O que me choca são os que filmam, os que gritam yeahh, os que se riem. Chocam-me porque não são tão maus quanto julgam - uma vez que não estão oficialmente a bater, a agredir, a insultar - mas são muito piores do que aparentam ser. São impermeáveis ao sofrimento do outro, são cruéis porque não ajudam e ainda aplaudem, são tão ou mais monstruosos do que os que praticam o acto. São o que eu chamo de agressores passivos. 

 

Agressor não é apenas aquele que insulta, que grita, que acusa e faz chacota. Agressores são todos aqueles que dizem amém, que se calam, que aplaudem e dizem "gostei muito" e "concordo contigo" e "és um espectáculo por seres assim, gostava de ser como tu".

 

Chocam-me as pessoas que não distinguem a causticação do crime, o sarcasmo do bullying, a frontalidade da má educação.

 

 

Assim sendo, e de acordo com recentes aprendizagens:

  • O homem que humilha a mulher; que a espanca; que a reduz a uma insignificância ainda maior que a da formiga, é caustico.
  • O homem que vai dizer para o café que a mulher é uma nulidade, que é uma porca e uma imbecil, é frontal.
  • O homem que anda com outras mulheres e que diz umas piadas à frente da mulher sobre traição, é sarcástico.

 

É isto que eu apreendo minha gente! É isto que me ensinaram à pouco tempo nisto dos blogs. Aprendi também que, não existe bullying: existe frontalidade, sarcasmo e causticidadee que a isso se chama liberdade de expressão, que é basicamente poder dizer-se toda a merda que apetecer mesmo quando isso afecta terceiros inocentes. Só e apenas porque sim! E viva ao 25 de Abril de 1974!

 

Ora admitam lá... Sou uma boa aluna, hem?

 

Ensinaram-me isto, mas a realidade é bem diferente. O termo violência não diz respeito apenas ao uso e abuso da força física. Violência é também usar do poder da palavra para ameaçar, humilhar e isolar alguém. Gozar alguém é violentar esse alguém, mesmo que nunca se toque num único fio de cabelo e que nunca se venha a conhecer a pessoa fisicamente.

 

Concordarão a maioria de vocês com as minhas palavras. E, por isso, sabem o que me choca ainda mais?

 

É que alguns de vocês, mesmo sem querer e sem ter essa noção, pactuam com esses comportamentos. O meu olhar atento sobre a vida tem-me permitido perceber que pessoas que aparentam ser íntegras, que se auto-insurgem contra o bullying e contra todo o tipo de violência, acabam por ter comportamentos contraditórios.

 

Pessoas que quando lêem noticias deste género...

jornal.jpg

 ... Têm discursos deste género:

  • "Mas e então, e ninguém fez nada?"
  • "Ninguém foi capaz de denunciar esta situação?"
  • "Cabrões dos miúdos que hoje em dia são uns mal-educados, aquilo é tudo falta de porrada no lombo".

 

Mas são avistados, aqui e a li, a pactuarem com situações do género, ou por fecharem os olhos e fingirem que não vêem, ou por sorrirem de forma mais ao menos camuflada perante alguma situação, ou ainda por aplaudirem descaradamente cada comportamento.

 

Entendam que o que para muitos trata-se apenas de uma brincadeira - ainda que de mau gosto - para outros é uma cruz que passam a carregar. A cruz da vergonha, a cruz da inibição, a cruz do temor. Se ao olhos de muita gente é divertido gozar com alguém porque é gordo, ou porque tem um andar esquisito, ou porque só diz coisas parvas, aos olhos de quem sofre calado as agressões, a história é bastante diferente. Saberão vocês o que as pessoas sentem ao serem perseguidas? Ao serem gozadas? Ao serem ridicularizadas com sarcasmo, causticidade e muuuita frontalidade?

 

Lembrem-se de uma coisa... Gostava mesmo que retivessem o seguinte com muita, muita atenção:

 

Mesmo que não gostemos de alguém, mesmo que esse alguém nos irrite - apesar de nunca nos ter feito mal algum - mesmo que só a existência dessa pessoa nos faça revirar os olhos,  apontar sempre o dedo ao mesmo ceguinho é perseguição. Pactuar com o apontar do dedo ao ceguinho é perseguir também. E perseguição é crime.

 

Não pactuem! Mesmo que a pessoa não vos diga nada ajudem-na a levantar-se, até porque hoje são elas, amanhã serão vocês, que essa gente não é de ideias fixas!

1 comentário

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.