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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Às vezes é preciso arregaçar as mangas

Somos todos diferentes. E nada iguais.

 

Vejo muita gente a culpar a infância infeliz, as dificuldades financeiras do passado, e a falta de oportunidades pela falta de sucesso do presente e pela falta de perspetivas de futuro. Sou educadora social, com estudos em psicologia e sociologia, sei que efetivamente a infância e as experiências passadas influenciam e muito o caminho que se traça, e as nossas motivações. Mas é inegável, e a psicologia e a sociologia também o diz, que os indivíduos podem em si só ultrapassar muitas das dificuldades e traçar um caminho diferente, menos trágico, menos pesado, menos vitimizante.

 

Eu também tive uma infância de merda. Eu também passei por fases em que só comia sopinha ao almoço e ao jantar porque o dinheiro não dava para mais. Eu também tive de ir trabalhar quando ainda era "criança" para ajudar nas despesas. Eu também tive um pai de merda e uma família de faz de conta. Eu não podia usar saias curtas que isso era roupa de puta. Eu não podia sair à noite apesar de já ter 18 ou 19 anos e um namoro de 3/4 anos, porque só as putas é que saíam à noite. Quando aos 19 anos fui trabalhar para um bar - do namorado e de uns amigos - fui acusada de desgraçar a família, que aquele trabalho não era de menina honesta e de boas famílias, fui ameaçada que iria ser expulsa de casa se não viesse embora. Claro que não precisei de ser expulsa, eu própria saí pelo meu próprio pé, de cabeça erguida e orgulho vitorioso. A vida ensinou-me que não devemos ficar onde não somos bem-vindos.

 

Não é segredo para ninguém - acho eu - que fui vítima de violência psicológica por parte do pai durante toda a minha infância e juventude. Também a mãe foi. Quando eu era miúda - tinha uns 3 ou 4 anos - a mãe tentou divorciar-se do pai, e o pai ameaçou que a mãe nunca mais me veria. Então a mãe aguentou um casamento de fachada, até porque o seu ordenado não lhe permitia ter uma vida independente, não lhe permitia tão pouco pagar uma casa. E o pai sempre foi tendo poder porque tinha dinheiro, uma casa. Obviamente nunca nos demos. Obviamente eu nunca o defendi numa discussão. Obviamente eu estava sempre do lado da mãe. E obviamente era persona non grata por isso. Assim, quando o pai estava chateado com a mãe, era como se estivesse também chateado com a filha e não lhe falava, mesmo quando nada tinha que ver com isso.

 

Quando eu tinha 16 anos, os meus pais meterem-se num negócio desastroso, contas começaram a ficar pendentes e dívidas começaram a surgir. O dinheiro não chegava para tudo. Ainda estudava. Tinha acabado de passar para o 11º ano e quando precisamos de contar com o apoio escolar para eu poder ter livros para poder continuar os estudos, o apoio escolar falhou. Pois que o facto de ter uma casa - apesar da conta bancária estar a zeros - foi fator de exclusão: "rendimentos a cima da média" dizia na folha de recusa. Mas quais rendimentos? Não... não existiam rendimentos. Então aos 16 anos fui trabalhar para uma cadeia de fast food. Aproveitei o mês de Agosto, das férias e trabalhei a full time para ajudar a colocar as despesas em dia, e assim que começaram as aulas, passei para part-time durante a semana, e a full time ao fim de semana. Desde então passei a trabalhar e a estudar. Claro que a média de 17 se foi. Claro que a minha média miserável de 13 - porque quando se trabalha e se estuda não sobra muito tempo para estudar - não me permitiu seguir em frente e entrar em Enfermagem como eu queria [ainda bem, sejamos sinceros, sei hoje que não teria a mínima vocação para enfermeira.] nem em psicologia - a minha segunda opção. Acabei assim num curso sem saídas profissionais.

 

Continuei, desde então, a trabalhar e a estudar.

 

Aos 20 anos, trabalhava, andava a terminar o secundário, e saí de casa dos pais por não aguentar mais o pai. Era isso ou dar um tiro nos cornos. Preferi sair de casa. Passei a ter de cuidar de uma casa, estudar e trabalhar. Ainda assim consegui realizar os exames de acesso à faculdade e entrar onde queria, dentro das minhas possibilidades - que é como quem diz, dentro a média.

 

Com a entrada na faculdade tive de escolher entre continuar a trabalhar num emprego onde estava estável, ou ir estudar, porque os horários eram totalmente incompatíveis. Escolhi, porque tenho um grande Mulo* a meu lado, estudar para tentar uma vida melhor. Tive a sorte de ter conseguido um outro emprego, temporariamente, que me permitiu ter uma esmola ao final do mês por parte do centro de emprego, que pelo menos dava para metade da renda, não sendo muito, ajudava. Só a estudar no primeiro ano do curso, figurei da lista de alunos de mérito da faculdade. Terminei o primeiro ano do curso com uma média de 17.

 

Não dava para continuar sem trabalhar. As dívidas ao cartão de crédito - essencialmente para alimentação - amontoaram-se. Voltei a trabalhar. Trabalhava de manhã, estudava à noite. Assim foi o meu primeiro semestre do segundo ano. Odiava o que fazia. Era um sacrifício ir trabalhar para aquele local.

 

Despedi-me e arranjei outro emprego, a full time.

 

Trabalhava das 8h às 17h, entrava na faculdade às 18h e saía às 00h. Aguentei assim um ano. Felizmente tive muita ajuda por parte dos meus colegas que me facultavam os apontamentos quando aterrava no sofá em vez de ir às aulas. Obviamente baixei a média. Ia dormir para as frequências e não aguentei o ritmo como desejava. Ainda assim terminei o segundo ano com uma média de 13 valores, com zero negativas. Orgulho-me de nunca ter ido a exame. Nada mau para uma trabalhadora estudante em full time. Contas equilibradas, no terceiro ano alterei para part-time, porque não era possível conciliar com o estágio do curso. Então trabalhava, estudava, tomava conta da casa e ainda... estagiava. Terminei o estágio com 17 valores. Finalizei o curso com uma média de 16.

 

Claro que isto pouco importa porque estou a trabalhar atrás de um balcão a ganhar 530€. Mas tenho neste momento, um marido fantástico, casa própria, carro e uma licenciatura com sangue suor e lágrimas. Tenho as minhas contas em dia, e ainda temos uns trocos para viajar de quando em vez. Já conheci as cidades principais de 10 países diferentes da Europa e até quase vi a torre Eiffel.

 

Podia ter sido uma pobre coitada como muitas outras, lamentar-me da minha terrível infância e da falta de oportunidades... Mas optei por criar as oportunidades e ter uma vida minimamente feliz!

 

Porque às vezes é preciso arregaçar as mangas e escavar até encontrar oportunidades para sermos alguém.

 

 

*Que podia ser rico, mas que não é. Trabalha ininterruptamente desde os 16 anos, vem de uma família ainda mais modesta que a minha, e tem uma história de vida ainda pior que a minha. Não somos por isso dois sortudos, somos apenas trabalhadores e esforçados.

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