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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

A xô dona caloira Mula.

Está oficialmente aberta a época do caloiro, e os cânticos já se ouvem rua acima e rua abaixo e parvoíces como esta já se ouvem aqui e ali... 

 

Tenho um misto de sentimentos pela praxe. Não sei se ache piada ou se odeie.

 

Não fui caloira, bem... Fui, mas sou fraquinha e só aguentei uma semana - vês Sofia como sou fraquinha?. Acho que a intolerância de seres estranhos a berrarem comigo, aliada a um curso que não foi a minha primeira opção, foi uma combinação explosiva anti praxe - que não sou, efetivamente. Sim, se calhar não consegui vestir a camisola porque não consegui acreditar totalmente no curso que ia tirar. Sim, se calhar não consegui berrar com toda a energia e convicção as canções do curso porque não acreditava verdadeiramente nas letras. Sim, eu queria desesperadamente sentir-me encaixada em algum grupo e por isso decidi inscrever-me uma semana depois das aulas terem começado e depois de perceber que isso me fazia demasiado infeliz cancelei a inscrição uma semana depois. Fodeu-se tudo... Disseram-me, antes de me inscrever, que eu não iria conseguir seguir a praxe, que eu não tinha perfil que se encaixasse no perfil do caloiro, e eu dei-lhes razão... Odeio dar razão às pessoas quando isso implica perder a minha.

 

A faculdade foi uma das minhas grandes paixões, quando consegui finalmente entrar no curso que queria - minimamente, e dentro de determinados parâmetros - foi uma grande alegria e ia para as aulas com toda a vontade. A verdade é que a partir do momento em que passei a ter de entrar na faculdade com as orelhas de burro - ou já seriam orelhas de Mula? - deixei de querer ir às aulas e passei a faltar. Passavam a vida a perguntar-me por que é que eu não ia às festas - como se trabalhadora-estudante tivesse tempo para andar em festas - e a insistirem comigo para estar mais presente nas praxes. Berravam comigo, impediam-me de os olhar nos olhos e tratavam-me mal, sem se quer me conhecerem. Se saía a meio de uma aula para ir à casa-de-banho era incomodada, se queria ir ao bar comer era incomodada, se queria simplesmente mandar tudo para o ar, era incomodada. Assim é a praxe, pelo menos na minha antiga faculdade. Como haveria de aguentar isto tudo durante um ano? É que as praxes no Porto são anuais, não duram apenas durante a receção ao caloiro como em muitas faculdades de outros pontos do país. Digo à boca cheia nas entrevistas de trabalho que tenho uma ótima capacidade de resistência ao stress e a pressões. Não tenho efetivamente. Não tenho. Odeio que me berrem, odeio que me deem ordens e que me contrariem. Odeio que me apressem. Não gosto, pronto. Não gosto.

 

Por isso, hoje quando olho pela porta da loja e vejo caloiros de sorriso no rosto e serem humilhados com convicção e vontade, questiono-me como é que é possível? Sim, acredito que seja uma questão de espírito. Que é um bocadinho como nisto dos blogs, não podemos levar a sério... Mas eu levava. Eu já tinha 23 anos anos, não estava ali para estar a brincar. Tinha contas para pagar, uma bolsa para manter, notas altas para tirar. No entanto ao olhar para a camisola de caloira que guardo religiosamente, bate-me uma saudade e fico com um sorriso no rosto. Não me arrependo de ter desistido ainda assim, assim como não me arrependo de me ter inscrito. Simplesmente aquele mundo não é o meu, mas tentei.

 

Quando desisti da praxe fiquei com algum receio que a minha turma me pegasse de ponta - olha a enjoadinha... - mas curiosamente aconteceu o contrário. Não tentei convencer ninguém de nada, não vendi o meu peixe, como se costuma dizer, mas originei de certa forma - ainda que acho que de modo inconsciente - uma onda de bate-pés, e várias pessoas desistiram quase logo a seguir a mim. Percebi que não era um bicho assim tão raro por olhar as praxes de lado e as humilhações que lá se praticavam.

 

Sou contra qualquer tipo de humilhação. Toda. Seja a brincar, seja a sério. Seja na vida real, seja atrás de um computador. Sou contra. Nunca sofri propriamente de bullying. Sofri tentativas de me fazerem de bobo da corte, mas felizmente, sempre falhadas. No entanto vi várias pessoas à minha volta a sofrerem com isso. Por isso o bullying sempre me enojou e para mim a praxe é uma forma de bullying. Chamem-me exagerada e de radical, mas é o que eu acho. Cresci com a fama de mau feitio e talvez por isso sempre me dei bem com toda a gente: com os bacanos e com os grunhos. Com os nerds e com as pseudo miss mundo. Sempre tive um grupo limitado de gente com que me dava verdadeiramente, mas sempre me relacionei com os restantes sem grandes dificuldades. Na faculdade não foi diferente, e a minha grande amiga da faculdade seguiu a praxe até ao fim, e ainda assim desfilou comigo no cortejo e não com o grupo de trajados como ela. Eu de cartola orgulhosa, ela de traje a rigor. Percebi que a minha turma estava no curso certo. Que era uma turma que integrava fechando os olhos a quem. Que não segregava. E os trajados seguiram com os não trajados e foi lindo.

 

Bem, mas retomando a questão do bullying e da praxe. Apesar de considerar a praxe uma forma de bullying não sou contra a praxe, porque a meu ver, só lá está quem quer - ou quem não tem tomates para desistir é certo - mas a verdade é que a partir do momento em que é opcional acho que deve existir porque sou a favor de nichos. Agora, é como algumas práticas sexuais... Não condeno mas nem por isso tenho de compreender e querer fazer igual... E eu não consigo, definitivamente, compreender como é que alguém é feliz a ser insultado, a menos que seja praticamente de sado-maso e aí, 'bora lá, até eu ajudo.

 

No fundo, a praxe é só uma forma de manter a ordem social das coisas estável: uns mandam, outros obedecem, vai ser assim quando os caloiros entrarem no mercado de trabalho já homenzinhos e mulherzinhas, mas depois vão continuar a serem amestrados com uns - enquanto estiverem no andar de baixo - e selvagens com outros - quando tiverem algum tipo de promoção e tiverem funcionários a cargo - porque na realidade o sistema não ensina um meio termo, um equilíbrio. Talvez por isso haja chefes tão intragáveis.

 

Para mim a praxe deveria servir como processo de integração e de interajuda entre os mais velhos e os recém-chegados - ou não fosse eu Mula de educação social - mas a praxe nada tem que ver com isto... E a boa praxe para alguns é apenas copos, festas e ... tudo o resto que possam imaginar. Hmmm... Não. Passo. Obrigada.

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