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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

A mentira da existência da felicidade!

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Hoje partilho convosco, um texto que apesar de já ser antigo se encontra muito atual. Fala sobre uma felicidade estranha, sobre vazios e derrotas, mas também fala de como é nossa culpa nos sentirmos assim, pela nossa impassividade, e pela nossa capacidade de cruzar-mos os braços muito facilmente.

Mais um ano e tudo passou.

Uma vez mais, tudo vi fugir…

Nada Fiz. Não me movi…

Tédio de Vida!

 

Nem sempre desejar com toda a força é suficiente para que os nossos pés se movam. Nem sempre querer tudo é conseguir alguma coisa. Nem sempre o ser capaz é suficiente para alcançar e por vezes a burrice do nosso ser é maior e supera-nos em todas as acções.

 

“Querer é Poder” dizia o Outro, que Outro ser tão insignificante. Deve na realidade ter desejado muito pouco e nem reparou que na realidade nada conseguiu. Frases feitas… Frases estúpidas e feitas. Pobre ser. Mais pobre do que eu própria consegui ser.

 

Pobre, não é aquele que esfarrapado pede nas ruas com olhar desalmado. Pobre, é aquele que pede nas ruas esfarrapado com olhar desalmado de fome, mas que na outra vida, naquela que leva a part-time, tem casa, carro, filhos lindos em colégios caros. Pobre, muito pobre. Pobre de espírito. Coitado!

 

Pobre não é aquele que com desespero leva os cães e gatos para a calçada, esqueléticos e famintos, aproveitando-se das caridosas almas, que pelo medo do inferno contribuem para diabos disfarçados. Pobre, é o animal que não escolheu seu dono e que mesmo o amando é maltratado, mas feliz vive por não conhecer outro modo de vida.

 

Pobre, não sou eu que fiquei para trás por falta de coragem e audácia de vitórias. Pobre é aquele que correu, caiu, se levantou e voltou a correr e ainda assim, viu a porta  fechar-se sem que tivesse tido tempo ou espaço para gritar, para entrar e vencer.

 

Não sofro pela infeliz vida, essa, já a aceitei. Sofro pela incapacidade, pelo tédio de olhar à volta e ver sempre o mesmo, ver tudo aquilo por mim começado… inacabado. Sofro pela náusea, pela imposição astral que é nascer a meio de Abril, no meio de chuvas ácidas e lágrimas salgadas causadas pelo sofrimento que me é imputado.

 

Morte àquele que impôs este destino. Morte àquele que o traçou. Morte àquele que ME traçou.  Sou tão forte que berro bem alto, mas tão fraca que desmaio com meu próprio arfar. Tão grande que adoro tudo e me apego a nada. Tão irritante que me entedio com o meu próprio ser entediante.

 

Ignorância. Estupidez. Sofrimento. Luto com a audácia de Carneiro até à resignação da desistência. Vivo assim e por entre a infelicidade, sou feliz!

Ao lerem este texto, e sabendo de antemão que é antigo, provavelmente vão pensar que fui muito infeliz, muito triste, "ai meu deus" muitas lágrimas! Pior ainda pensarão, após indicar ser muito atual. Verdade?

 

Se alguém me estiver a ouvir - ou a ler, está claro - gostaria que me respondessem a uma questão:

 

Vocês são felizes?

 

Irá certamente existir pessoas que são felizes, outras que nem tanto. Quem responder que não - não são felizes - escusa de comentar, uma vez que não sou psicóloga e não estou interessada nos vossos problemas, e depois iríamos ficar aqui todos tristes e melancólicos, e coisa e tal, e não pode ser... - brincadeirinha, está claro. Podem expressar-se à vontade, se sentirem essa necessidade, e até pode ser que encontrem empatia no ombro de alguém, porque como se sabe, o português sofre muito com os problemas dos outros.

 

Bem, continuando... Alguém é feliz? Verdadeiramente feliz?

Se existir alguém feliz, sem reservas, que diga como se processa esse sentimento. Nunca chora? Nunca se entedia? Nunca deseja morrer, nem que seja só por uns instantes de loucura? E quando morre alguém próximo, continua feliz, mas um pouco mais vazio? Confessem lá, quando sai o modelo seguinte do vosso telemóvel são um pouquinho infelizes, não é verdade? Pelo menos até o adquirirem e antes de sair o seguinte...

 

Bem, falo-vos na minha ótica, claro, mas creio que a felicidade não existe. Existem sim, momentos felizes, dias felizes, situações felizes. Mas não quero com isto dizer que os restantes momentos são infelizes e de puro sofrimento, quero com isto dizer que podem existir momentos que não somos nem felizes nem infelizes, são os chamados momentos normais. É tipo quando estamos a ver um filme na televisão que não nos interessa, mas também estamos demasiado preguiçosos para mudar de canal - acreditando não ser a única preguiçosa a quem isto acontece. Nestes momentos, a menos que esteja a pensar nalguma coisa, não consigo ser feliz, nem infeliz. E para o bem e para o mal, é neste estado que me encontro a maior parte do dia. Mas às vezes vem alguém, diz uma parvoíce qualquer, eu rio-me e sinto-me bem e vivo um momento feliz.

 

Às vezes penso que isto tudo iria ser diferente se ganhasse o euromilhões, mas logo desço à terra e sei que nada disto seria diferente, porque iriam surgir outras rotinhas - ainda que acompanhadas frequentemente de flutes de champanhe e de banhos de jacuzzi -, outras preocupações e stress - ainda que esses nós de tensões acumuladas nas costas saíssem facilmente nos SPA'S - e outros motivos de infelicidade - quando surgissem as discussões quando os apetites gastronómicos não fossem comuns ao casal. Como diz o slogan "Há coisas que nunca mudam!".

 

Eu mesmo rica, riquíssima, iria continuar a chatear-me sempre que o Mulo olhasse para as pernas e rabos das meninas magras e jeitosas, iria continuar a stressar-me o facto de ele passar horas em frente ao computador... Eu penso que iria continuar a ter praticamente os mesmos problemas, só que com mais classe e com as unhas sempre arranjadas.

 

Por isso, um conselho de amiga:

 

Vivam mais e lamentem-se menos, porque a ideia de felicidade - absoluta - está apenas presente na nossa cabeça. Aproveitem melhor cada momento feliz pois nunca sabemos quando virá o próximo!

 

Deixo-vos com uma expressão de Epicuro:

Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.

 

See you*

 

 

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