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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: São Jorge

Estava mortinha por ver o filme São Jorge que deu a Nuno Lopes o prémio Orizzonti de melhor ator. Já tinha visto o trailer, foi só esperar pela sua estreia, e assim que me foi possível - no fim-de-semana - lá fui eu. A sala estava bastante composta, fiquei admirada por não ser muito normal nos filmes portugueses, talvez o facto de estar a rodar apenas em duas salas de cinema aqui no Porto, tenha ajudado.

 

Assim que vi o trailer que fiquei curiosa, sou grande fã do cinema português, gosto muito do Nuno Lopes, gostava do tema do filme - a crise, o desemprego, as condições miseráveis em que muitos portugueses vivem -, achei que não havia nada que pudesse falhar.

 

Sabemos que estamos perante um bom filme quando saímos da sala do cinema a refletir sobre ele, a questioná-lo, a falar sobre ele.

 

 

São Jorge conta a história de Jorge, pugilista, crente em São Jorge, Santo guerreiro e mártir padroeiro dos guerreiros, que após ficar desempregado, arrisca-se a perder o seu filho - a mãe, brasileira negra, que vive em condições miseráveis pretende regressar ao Brasil com o filho - e para evitar que tal aconteça decide empregar-se como cobrador de dívidas difíceis. No entanto, Jorge que tem uma vontade enorme de ganhar dinheiro para mudar de vida, tem valores e há coisas que ele questiona, nomeadamente a forma de operar dessas empresas, que o colocarão em risco, bem como daqueles que ama. No entanto, há ciclos difíceis de fugir.

 

São Jorge tem uma boa história, a interpretação de Nuno Lopes está realmente brutal, é incrível como se consegue perceber nos silêncios - e ele fala tão pouco no filme - o sofrimento, o desespero, a raiva. Olhamos para ele e parece uma bomba relógio prestes a explodir. No entanto a concretização do filme deixou-me um pouco a desejar. É demasiado lento, exageradamente lento. Nos diálogos há silêncios de mais de 5 segundos. Não há um pergunta-resposta, há demasiados silêncios enervantes, mas apesar de não gostar muito quando assim o é, compreendo o motivo de o ser. Todo o filme é quase um silêncio absoluto, incomodativo que espicaça o expectador e o obriga a sofrer junto com as personagens porque não há forma de nos abstrairmos, não há outro entretém, que não o silêncio tão doloroso.

 

A questão é que não encaro este filme como um filme, acho que se perde quando é classificado como um filme. Este filme é quase um documentário e é um documentário brutal. É no fundo um relato, um relato sobre as dificuldades que as pessoas enfrentam diariamente quando ficam desempregadas e não têm suporte familiar. É um relato do que se passa e acontece nos bairros mais marginais de Lisboa e arredores. As casas são feias, não há condições mínimas, as pessoas amontoam-se, o dinheiro é pouco a a comida quando chega, não dá para matar a fome.

 

É um filme que documenta a forma como os portugueses olham para os subsídios, por vezes tão erradamente. Mostram aqueles que querem viver dos rendimentos mínimos e aqueles que se recusam a viver deles. Mostra a inocência de uns, e a perversão de outros. Fala de racismo e da interculturalidade. Fala no fundo da realidade de muitos portugueses. Fala da violência de quem cobra dívidas sem olhar a quem e a forma como o Estado legitima essas cobranças violentas. Mostra o que as dívidas podem fazer às pessoas.

 

Eu gostei do filme, achei que podia ser um pouco mais agitado, enervou-me e criou-me algum aborrecimento em determinadas partes. No entanto achei o filme do ponto de vista da história e do enredo muito rico.

 

Não vejam o filme com sono, mas vejam, vale a pena.

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