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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Apercebi-me que é muito fácil tomarmos uma má decisão...

... que possa ser desastrosa, ou só perigosa e inconsequente sem que nos apercebamos.

 

 

 

Ontem quando regressava de Trás-os-Montes para o Porto apanhei dois incêndios: um de dimensão considerável que pintou o céu de negro e vermelho, deixando-me o coração amarfanhado com a dualidade de sentimentos - como é que é possível tanta coisa que representa a destruição ser bela e horrenda ao mesmo tempo? - mas que estava lá bem ao fundo, bem longe de nós; outro que não parecia tão grave - o céu não estava de vermelho carregado, apenas de um cinzento denso, horrendo, com um cheiro insuportável a fumo e muito perto de nós. 

 

Estávamos a caminho da autoestrada. Vimos ao longe o incêndio, parecia-nos longe da nossa rota - ainda que mais ou menos para a mesma direção - até que começamos a aproximarmo-nos... Demais. Vimos uma grande nuvem negra, paramos, pensamos em voltar para trás, mas a alternativa ainda ficava bastante longe.

 

Hesitamos.

 

De seguida uns 10 carros passaram e nós pensamos "se eles passam, nós também passamos... não deve ser grave" e seguimos viagem, até chegarmos a um ponto em que o fumo era tão denso, mas tão denso que simplesmente deixamos de ver a estrada. Os carros que seguiram à nossa frente tiveram a mesma reação: "E agora?" uns começaram a fazer inversão da marcha, outros simplesmente ficaram como um maluquinhos no meio da ponte, e até termos ido embora ficaram ali parados, provavelmente na dúvida se avançavam se recuavam. Nos entretantos, os camiões dos bombeiros simplesmente desapareciam quando ultrapassavam aquele bocadinho de estrada. 

 

Jogamos pelo seguro, fomos uns dos que fizeram inversão de marcha e uma hora e meia depois -  o tempo que precisaríamos para chegar ao Porto - lá estávamos nós a passar aquele ponto - mas do outro lado do monte - para regressar a casa em segurança.

 

Tomei consciência do quão fácil é vacilarmos numa situação imprevisível e inesperada. "É só fumo, não há labaredas à vista" e "o mal só acontece aos outros" é um pensamento tão fácil que nos leva por vezes a tomar decisões erradas. Não sei se todos os carros decidiram regressar, ou se decidiram arriscar. Não sei tão pouco se existia um risco efetivo - no final de contas a estrada estava aberta, só a auto-estrada estava fechada, ainda que já tenhamos visto com Pedrógão que isso não é garantia de nada, infelizmente - mas a verdade é que a decisão de regressar não foi imediata, apesar de tudo apontar para ser a decisão mais sensata.

 

Na realidade sabemos muito pouco do que aconteceu, acontece, ou que poderia ter acontecido. Mas no fundo, mais vale perder uma hora e meia na vida, do que a incerteza do que se pode passar para que essa hora e meia não se perca, ou que se perca para sempre...

 

Apercebi-me que é realmente muito fácil tomarmos uma má decisão que possa ser desastrosa, ou só perigosa e inconsequente sem que nos apercebamos e isso é assustador!

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.